Sentindo o vento da liberdade em Zambia
“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” Cecília Meireles
Deixei Katima Mulilo confidente com relação ao meu joelho. Estava feliz com a idéia de reencontrar o Dan e dividir as experiências que vivemos separados. Passaríamos algumas semanas nos voluntariando para um projeto educacional interessante em Lusaka e, viveríamos dias felizes na estrada. Esse seria “o começo do fim” de uma jornada maravilhosa na minha vida - os últimos quilômetros até o nosso destino final - Cape Town.
O Reencontro
Cheguei em Lusaka e fui super bem recebida pelo casal, Joy e Ken Hoffman, fundador da Appleseed School – o projeto para o qual nos voluntaríamos.
Enquanto pedalava, pela Great North Road, em direção à Lusaka, o Dan teve uma experiência bastante desconfortável. Essa parte do país, não é tão povoada quanto os países do leste africano e achar água em pequenas vilas no norte da Zambia, se mostrou uma tarefa difícil.
Uma senhora dividiu, generosamente, sua água com o Dan. Infelizmente a água estava contaminada e o Dan teve uma das piores infecções intestinais experimentadas até então.
Ele passou quatro dias, sozinho, em um quarto de uma pensão barata, sem acesso à comida saudável. Sem nenhum sinal de melhora, ele optou por pegar um ônibus para Lusaka e ter um tratamento mais apropriado.
Confesso que depois de cinco semanas separados, estava um tanto ansiosa para reencontrá-lo. Contudo, apesar da distância e incertezas, assim que nossos olhares se tocaram sentimos como se estivéssemos juntos todo esse tempo. Os abraços foram confortantes e trouxeram a certeza de um amor bonito e acolhedor.
Foi preciso uma semana e uma dose de antibióticos, para o Dan se recuperar dos fortes sintomas causados pela água contaminada.
Appleseed
Joy e Ken Hoffman, ambos professores, foram para Lusaka em 2011 para ensinarem na AISL – American International School of Lusaka.
Alguns meses depois de sua chegada, eles visitaram a comunidade onde Mary, que na época ajudava Joy com a casa, mora - o Bauleni Compound.
Eles começaram, então, a frequentar a comunidade, durante os finais de semana, para alfabetizar e brincar com as crianças que não tinham acesso à educação.
As crianças começaram a bater na porta da casa da Mary para pedir mais aulas. Inspirados pelo entusiasmo e a sede por aprendizado das crianças - Joy, Ken e Mary alugaram uma pequena casa e começaram a RHO Appleseed School.
Como outros projetos que visitamos durante a nossa viagem, a Appleseed começou como um projeto pessoal, resultado de uma ação passional, do desejo de doar e beneficiar pessoas menos privilegiadas.
Contudo, para atingir os objetivos idealizados originalmente, Joy e Ken estão enfrentando os desafios para registrarem a Applessed como uma organização sem fins lucrativos.
A Joy e o Ken precisam de direcionamentos que, um profissional como o Dan, com experiência em negócios e gerenciamento tem. Sendo assim, o Dan passou três semanas trabalhando, juntamente com eles, para estruturar um plano de cinco anos de desenvolvimento estratégico. O Dan criou um documento com ações passo a passo para a construção de uma escola para 250 crianças – no momento a Applessed oferece educação para 80 crianças.
Tentando pesar compaixão com o pragmatismo, a emoção e a objetividade, eles produziram um plano muito útil que acreditamos ser fundamental para que a Appleseed obtenha o apoio profissional que necessita para crescer.
Enquanto o Dan trabalhava com o plano estratégico, eu trabalhei no vídeo para ajudar a promover o projeto e, consequentemente, angariar fundos.
Fiquei muito feliz com o resultado final e acredito que, juntamente com o plano montado pelo Dan, o vídeo trará benefícios bastante grandes para esse projeto inspirador.
Uma das melhores recompensas foi mostrar o vídeo para as crianças e os professores na Appleseed School.
Eu e o Dan adoramos o nosso período em Lusaka com a Joy, o Ken e suas duas filhas – Ally e Emma. Eles nos receberam super bem e foi um prazer poder ajudar a Appleseed School. Para saber mais sobre o projeto e fazer doações: www.rhoapplessedschool.org
A volta para a estrada
Depois de três produtivas e divertidas semanas em Lusaka, a minha bicicleta remontada e sem dor nos meus joelhos, eu estava pronta para sentir novamente o vento da liberdade.
Nos despedimos da família Hoffman ansiosos por mais aventuras e alguns dias cercados pela magnífica Victória Falls.
Deixamos Lusaka para o que seria o último teste para os meus joelhos. Os próximos quilômetros seriam cruciais e determinariam a minha continuidade, ou não, no Better Life Cycle.
Felizmente, Zambia não é um país muito montanhoso, o que foi perfeito para a minha volta à estrada. Eu e o Dan decidimos fazer o percurso entre Lusaka e Livingstone – 480 km – devagar para não forçar demais os meus joelhos.
No primeiro dia pedalamos 70km até Kafue. Foi um alívio e uma alegria enorme ter feito esse percurso sem dor. Contudo, eu ainda não estava totalmente confiante e mantive as fitas que a fisioterapeuta em Kampala me indicou – Kinesio Tape.
No segundo dia pedalamos 80km até Mazabuka. Estávamos vivendo, novamente, um sonho. Sorríamos como crianças em um parque de diversões, nos olhávamos e a emoção transparecia em nossas lágrimas. Estávamos mais unidos do que nunca.
No terceiro dia tirei a fita e pedalei 100km pela primeira vez em 4 meses. Estava super feliz e os dias na estrada trouxeram a confiança que eu esperei.
Eu senti que poderia pedalar até Cape Town, que eu terminaria o que comecei a dois anos atrás. Foi uma sensação de alívio, me senti forte e capaz. Senti que, apesar do aprendizado maravilhoso sobre a transitoriedade e impermanência da vida, eu poderia fazer o que eu gostaria de fazer e o melhor, não me sentia apegada a esse sentimento. É difícil transpor em palavras, não sei explicar, exatamente, como me senti, acho que me senti livre, me senti como uma tempestade de verão: forte, intensa, sem limites.
Livingstone e Victória Falls
Chegamos em Livingstone cheios de energia. Eu estava, realmente, em êxtase. Nunca imaginei que pedalar quase 500km, no sol quente africano, me traria tanta alegria, rs.
Depois de uma (ou duas, ou três) garrafas de Coca-Cola devidamente geladas, nós seguimos para o Livingstone Backpackers – um albergue delicioso, com piscina e um ambiente super aconchegante. Caso você esteja viajando com um “budget” pequeno, eu super recomendo o Livingstone Backpackers.
No albergue conhecemos um ciclista alemão que nos conquistou imediatamente. Willi começou sua aventura em Israel e está pedalando desde fevereiro. Ele estava pronto para cair na estrada novamente, mas a nossa conexão foi tão grande que ele decidiu explorar a famosa Victória Falls conosco – o que nos alegrou bastante.
Alma lavada, Adrenalina e um olho roxo
O Dan fez um vôo de microlite sobre a maior queda d'água da África. Ele voltou para o albergue em puro êxtase - aparentemente, é um dos passeios mais bonitos para se fazer na Victória Falls. Durante o vôo, ele pôde observar a grandeza de uma das sete maravilhas do mundo e admirar o canyon que o rio Zambeze atravessa.
A animação do Dan foi tão contagiante que eu e o Willi ficamos inspirados para nos aventurarmos nas águas do rio Zambeze – não iríamos fazer os passeios pelo preço, mas decidimos nos presentiar com um pouco mais de aventura. No dia seguinte, então, fomos para o que seria um dos dias mais incríveis da minha vida.
Começamos o dia tomando um banho em uma das maiores cachoeiras do mundo. Com uma queda forte e poderosa, a minha alma estava lavada. Mal podia acreditar que eu estava sob as águas da famosa Victória Falls.
Com a alma lavada e energizada pela mãe natureza, seguimos para o dia inteiro de rafting no rio Zambeze. Eu nunca tinha feito rafting antes – a adrenalina é, inquestionavelmente, uma droga natural deliciosa. Eu não me lembro a última vez que gargalhei tanto...
Mesmo um pequeno acidente de percurso, que me deixou com o nariz ligeiramente cortado e o olho roxo, não tirou a deliciosa alegria que esse dia nos trouxe. Estávamos eu, o Dan e o Willi cansados e felizes. Vivemos, realmente, um dia inesquecível.
Próxima parada: Zimbabwe
O Willi, lone wolf – como ele se descreve - queria se aventurar pelo deserto de Namibia enquanto eu e o Dan estávamos indo para Zimbabwe. A nossa amizade fluiu de forma tão natural e gostosa que eu e o Dan, tentamos convencê-lo a mudar o seu trajeto e pedalar conosco por alguns dias até Francistown, em Botswana.
Ele topou pedalar conosco. O lone wolf teria companhia e nos faria companhia por algumas semanas.
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