Saturday, August 10, 2013

Namibia: Eudaimonia, ou o desabrochar humano

"O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser." Charles Chaplin

Eu estava, então, sozinha na África pela primeira vez. Sem o conforto que os planos para o futuro trazem, eu segui para Katima Mulilo com o coração aberto – solitude, bons sorrisos e belos dias de céu azul me trariam força e uma sensação de independência apagadas pelos medos gerados pelas dificuldades dos últimos meses. Katima Mulilo seria um novo começo para a minha viagem e para a minha alma.

Muito cedo para dizer tchau

Durante o período que passei em Uganda eu conheci a Pauline e sua mãe Lieneke. Pauline estava estagiando em um projeto do norte de Uganda e a Lieneke estava fazendo a pesquisa para sua tese de doutorado em Katima Mulilo, na Região de Caprivi, no nordeste de Namibia.

Nos conectamos de forma instantânea. Nasceu ali, uma bela amizade.

Ao conversarmos sobre a minha idéia de usar a yoga como forma de terapia e o meu desejo de me voluntariar com crianças na África novamente, a Lieneke comentou sobre uma amiga fisioterapeuta, Jesse, que trabalha em um centro para crianças com deficiência física, Cheshire Home, em Katima Mulilo. Naquele momento essa seria uma idéia interessante caso eu e o Dan passássemos por Namibia.

Contudo, quando eu me vi em Ruanda sem poder pedalar, eu decidi entrar em contato com esse projeto ao invés de deixar a África de forma repentina, ainda estava muito cedo para dizer tchau para a Mama África.

Estar em Katima Mulilo seria uma oportunidade de aprendizado e de me recuperar para, quiça, chegar em Cape Town pedalando. Uma oportunidade que me pareceu interessante demais para deixar que me escapasse pelos dedos.

Uma longa viagem

Havia chegado a hora de me despedir de Kigali e do Dan - Seguiríamos viagem sozinhos até Zambia, onde nos reencontraríamos novamente, em, mais ou menos, um mês.

O meu vôo sairia de Kigali em direção à Johannesburg, onde eu teria que esperar por 13 horas a minha conexão até Kasane, em Botswana. Uma vez em Kasane, eu teria que seguir viagem (130km) até Katima Mulilo.

Com a minha bicicleta empacotada e as malas prontas eu comecei a minha longa jornada.

Apesar da longa espera, as horas passaram, relativamente, rápido com a ajuda de duas cervejas e o meu sleeping-bag.

O extravio - Keep calm and Carry on

Felizmente eu tinha uma carona de Kasane até Katima Mulilo. Uma amiga da Lieneke – a amiga que me colocou em contato com o projeto para o qual eu iria me voluntariar – estava levando o namorado até o aeroporto e poderia me dar uma carona em uma pick-up, nada poderia ser mais perfeito.

Contudo, ao chegar em Kasane eu percebi que a pick-up não seria necessária, minhas malas tinham sido extraviadas e não havia nenhum sinal da minha bicicleta. O funcionário da South African Airways foi super atencioso e começou uma busca intensa pelas minhas malas.

Por mais perturbadora que seria a idéia de não recuperar a minha bicicleta, eu estava cansada demais para ter a reação que eu, normalmente, teria nessa situação. Eu segui viagem com a minha carona até Katima Mulilo com a esperança de receber boas notícias em breve no melhor estilo “keep calm and carry on” – no dia seguinte minhas malas foram entregues na “porta de casa”.

A chegada

Assim que eu cheguei no Cheshire Home, me senti energizada. Uma sensação muito boa tomou conta de mim. Senti, naquele momento, que eu havia feito a escolha certa, senti que um período bastante recompensador e interessante estava por vir.

Jesse, a fisioterapeuta amiga da Lieneke, me recebeu com um sorriso largo e sincero. As crianças brincavam no quintal. O sol estava se pondo e uma brisa gostosa fazia as flores dançar. Foi uma bela introdução à seca e quente Katima Mulilo.

Cheshire Home

Cheshire Home é um centro criado por um piloto inglês – Leonard Cheshire - que, por conta de uma acidente durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou deficiente físico. O projeto foi criado para melhorar a qualidade de vida de deficientes físicos e oferecer ajuda para comunidades locais, de acordo com suas necessidades específicas.

Existem diversas Cheshire Homes em diferentes países ao redor do mundo. Os centros funcionam de forma independente, porém reportam para o escritório central em Londres. Anualmente ocorrem reuniões para a troca de idéias e experiências entre os centros – me pareceu um formato muito interessante.

O Cheshire Home em Katima Mulilo é totalmente independente financeiramente. Eles construíram uma pequena pousada e com os lucros eles financiam o centro, foi inspirador ver o quão bem sucedido um projeto bem administrado pode ser.

As crianças moram no centro durante o período escolar, onde recebem alimentação e sessões diárias de fisioterapia oferecendo, assim, uma melhora na coordenação motora e, consequentemente, uma independência significativa para a qualidade de vida dessas crianças.

Na mesma semana que eu cheguei, eu já comecei as sessões de yoga para ver como seria a resposta das crianças à nova forma de exercício. Eles foram super receptivos, o que foi uma surpresa maravilhosa e me inspirou demais.

Eu tive que pesquisar e adaptar as aulas para as necessidades das crianças no Cheshire Home. Foi um tanto desafiador, contudo, após apenas algumas aulas eu pude perceber que, na verdade, o desafio maior estava no meu próprio pré-conceito.

Muitas vezes achamos que temos que tomar certos cuidados com crianças com deficiência física quando, na verdade, devemos tratá-los com naturalidade pois a maior dificuldade é imposta por nós, que estamos acostumados com os movimentos sem dificuldades, com dois braços e duas pernas.

As crianças no Cheshire Home me mostraram uma força e um senso de humor incríveis. Crianças alegres e sapecas que adaptam, elas mesmas, todas as brincadeiras e movimentos da forma que podem e, caso caiam, ou não consigam executar um exercício específico, o sorriso toma conta da sala e tudo vira uma grande diversão.

Não tenho a intenção de trabalhar com crianças com deficiência física – todavia, a minha experiência no Cheshire Home foi uma delícia e agradeço cada momento vivido com as crianças e os funcionários que formam essa família tão acolhedora que é o Cheshire Home em Katima Mulilo.

The Mainstream Foundation

Durante o período que passei em Katima Mulilo, eu também me voluntariei para o The Mainstream Foundation – um jardim de infância para crianças com deficiência física, mental e crianças carentes que, caso contrário, não teriam acesso à educação.

O projeto foi criado pela mãe de uma das crianças que, previamente, não podia frequentar a escola local pela sua dificuldade de aprendizado e necessidade de uma atenção direcionada.

Motivada pelo desejo de seu filho receber educação e ao mesmo tempo interagir com outras crianças que não são, necessariamente, deficientes, ela criou o projeto.

Por ser um jardim de infância, a idade da maioria das crianças varia de 3 à 5 anos – foi um desafio bastante grande dar aulas de yoga para crianças tão pequenas.

Contudo, o prazer de poder doar o meu tempo para dividir os benefícios da yoga com esses pequeninos superou qualquer desafio.

De um modo geral, crianças são muito abertas e receptivas. Com brincadeiras, movimentos, respiração e sorrisos, aprendemos, juntos, a respeitar o espaço e a individualidade um do outro. É recompensador notar - mesmo em um curto período - as pequenas diferenças que as aulas de yoga proporcionaram para essas crianças.

As experiências com as crianças com as quais trabalhei na África, foram fundamentais para o meu crescimento e auto-conhecimento. Aprendi demais com os meus pequenos yogis. Contudo, esse tempo em Katima Mulilo fez com que eu sentisse a real necessidade de um professor. Quero estudar, quero ser aluna para, então, ensinar. Sinto a necessidade de um “mestre” que me inspire, motive e me desafie. Quero poder entender se, realmente, quero ensinar yoga para crianças. Quero olhar para todas essas novas “descobertas” com mais perspectiva e sabedoria.

Recomeçar?

Depois de cinco semanas em Namibia, chegou a hora de me despedir da “família Cheshire”. Próximo destino: Lusaka, Zambia. Rendezvous com o Dan, Appleseed School – projeto que esperava por nós e, depois de algumas semanas, o teste final para os meus joelhos.

Seria a última chance de terminarmos essa viagem juntos. Cape Town parecia tão perto e ao mesmo tempo tão distante.

Apesar das incertezas desse momento eu estava me sentindo forte e feliz por ter escolhido viver essa aventura. Caso a minha viagem terminasse aqui, eu já estava satisfeita com todas as experiências vividas, com todos os desafios vencidos. Estava feliz por ter me dado a oportunidade de viver uma vida que considero de verdade, uma vida que move o meu coração. Estava feliz pelo suor de cada pedalada em um processo de transformação grande e recompensador.

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