Saturday, July 6, 2013

Ruanda: Despedidas e lágrimas

“O êxito da vida não se mede pelo caminho que você conquistou, mas sim pelas dificuldades que superou no caminho.” Abraham Lincoln

Reenergizados, eu e o Dan seguimos para Ruanda de ônibus. Tanto eu quanto ele, por motivos diferentes, não podíamos seguir viagem com as nossas magrelas. Ruanda seria um período de reflexões sobre a trágica história desse pequeno país e tristes despedidas.

Rwandan Flag Blowing

Kigali – A modernidade

Kigali Dawn

Assim que chegamos em Kigali percebi a diferença entre a capital de Ruanda e as outras cidades que estive na África. Em Kigali tudo parece funcionar de forma muito organizada. As ruas são bem sinalizadas e limpas, os pedestres respeitados assim como as calçadas e os sinais de trânsito.

Assim como outros países da África – e do mundo – com sua “democrática ditadura”, Ruanda não tem muita liberdade política, mas parece um país caminhando na direção certa com relação ao seu desenvolvimento. Contudo, esse “desenvolvimento” tem suas consequências. Kigali me pareceu uma cidade que “tenta” não ser africana. Uma cidade sem identidade, sem alma.

Roofs of Kigali

O Genocídio

Nos primeiros dias em Kigali não pude evitar os pensamentos sobre o terrível genocídio que devastou esse pequeno país em 1994. Foi desconfortável a idéia de que todas as pessoas com mais de 25 anos presenciaram, ou estavam envolvidas, em um dos massacres mais selvagens da nossa história. O genocídio aqui durou muito menos tempo, mas nesse período, pessoas foram mortas três vezes mais rápido que no holocausto (em 100 dias morreram mais de 1 milhão de pessoas), impressionante.

O Genocide Memorial Museum foi uma experiência intensa sobre não só a atrocidade em Ruanda, mas também, os genocídios que ocorreram ao redor do mundo. Com todas essas reflexões, os primeiros dias em Ruanda foram um tanto melancólicos.

Eu realmente não sei dizer se foram os pensamentos sobre o genocídio ou uma mistura estranha entre modernidade e pobreza, mas as duas semanas que passei em Ruanda não trouxeram uma experiência autêntica sobre a cultura do país – alguma coisa parecia estar perdida. Por consequência do genocídio, não existem tribos em Ruanda, são somente Rwandans – sem a possibilidade de celebrarem o melhor da sua herança cultural, a relação com suas origens se tornou superficial, pelo menos foi a sensação que eu tive.

Kigali by night

Amigos inesperados

Durante o nosso período em Kigali fomos hospedados, através do CouchSurfing, por dois voluntários alemães queridíssimos, Paul e Julien.

A estadia em Kigali se tornou muito mais prazerosa por causa da generosidade e hospitalidade desses amigos inesperados.

Espero reencontrá-los quando estiver novamente no Velho Continente. Danke Paul e Julien.

Breakfast in Kigali

Lake Kivu e a triste despedia

Lake Kivu Panorama

Infelizmente, eu não poderia seguir viagem com o Dan. O meu joelho não estava recuperado para pedalar no país de “mille collines” e esperar por mais um mês em Kigali não era uma opção para nós.

Fomos para Gisenyi, no Lago Kivu, para desfrutarmos as belezas de Ruanda e nos despedirmos. Foram dias que trouxeram lágrimas e muitas reflexões. Dias nos quais nos despedimos sem sabermos se terminaríamos a viagem juntos.

Estou nessa viagem no continente mãe, nessa viagem interna profunda, fazem um ano e dois meses e a cada dia aprendo mais sobre mim mesma, aprendo mais sobre os limites que precisamos respeitar. Aprendo sobre a necessidade de me desapegar dos conceitos pré-determinados e expectativas. Aprendo sobre a calma e a tranquilidade que acompanham uma vida sem as ilusões de felicidade que, inevitavelmente, criamos.

Acho mesmo que o maior ensinamento que a Mama África me deu foi aprender a viver um dia de cada vez, a “levar a vida devagar para não faltar amor”.

Gisenyi Promenade
Manu's Bike Packed Up
Gisenyi Pier

Novas veredas

Deixei Ruanda em direção à Katima Mulilo, em Namibia, para me voluntariar em um projeto com crianças com deficiência física.

Apesar da tristeza que acompanhou a minha despedida do Dan e do Better Life Cycle - ao menos pelo próximo mês, até eu e o Dan nos reencontrarmos novamente – eu estava feliz com a idéia de ter um pouco mais de tempo comigo mesma, de aprender e vencer desafios. Estava feliz com o caminho escolhido.

Sun Lake