Monday, May 14, 2012

Aprendendo a pedalar

"A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada” Bob Dylan

Quênia e Tanzânia: os desafios e a beleza da estrada

Its Simply Miles Ahead
O dia havia chegado. Acordamos com o nascer do sol, comemos um café-da-manhã recheado de carboidratos, para nos manter energizados, e começamos a colocar as “panniers” nas bicicletas.

O primeiro desafio foi acomodar tudo o que havia acreditado ser necessário para a viagem, o que tenho descoberto, a cada dia, ser apenas imposições sociais, e não necessidades reais.

Após acomodarmos tudo ― ou quase tudo, pois algumas coisas tivemos que deixar para trás ―, estava na hora de pedalar a Pretinha, nome da minha magrela, com todo o peso que ela carregaria (mais ou menos 100kg, contando comigo, é claro). Estava então imposto o segundo desafio.

Escaping Nairobi

Com o equilíbrio escasso, eu estava prestes a encarar um teste nada prazeroso: pedalar no meio do trânsito louco de Nairobi entre carros, caminhões, pedestres, outras bicicletas e charretes puxadas por burros ou bois, todos indo nas direções que lhes convinha.

Na primeira rotatória, me vi perdendo o equilíbrio. Tive que ser racional: segurar o peso da bicicleta em um dos pés (que consegui rapidamente apoiar no chão) e, logo em seguida, continuar pedalando. Era preciso passar a parte mais caótica e então parar para respirar... por muito pouco não caí entre os carros apressados.

Meu coração acelerou! E essa foi a primeira e, acho que até então, maior dose de adrenalina que tive. Senti as lágrimas nos meus olhos, as mãos trêmulas, e tentei forçar um sorriso para o Dan, que me olhava assustado. Acho que foi quando me senti forte o suficiente para dizer que estava tudo bem e que era só uma questão de me adaptar ao peso da bike. Seguimos adiante. Eu estava feliz com essa sensação de força que aquele momento me deu.

Logo estaríamos livres do caótico trânsito de Nairobi. O prazer de estar na estrada tinha substituído qualquer outro sentimento anterior. Estávamos felizes e unidos. Uma certa sensação de alívio se fazia presente, tanto para mim quanto para o Dan. Nós estávamos realmente dividindo o bem-estar e a liberdade daquele momento.

Enquanto pedalávamos adiante, os olhares nos uniam ainda mais. Foi, realmente, um belo começo.

Watermelon Smile
Relieved to be Enjoying It

Quando paramos para almoçar, uns 40km após o nosso ponto de partida, eu estava me sentindo viva. Livre e viva como há muito tempo não me sentia. Me permiti uma lágrima doce, um abraço apertado e um prato que no Brasil seria algo parecido com um PF duplo. Logo percebi que a comida é o nosso combustível, e então poderia me entregar aos prazeres da gula, sem culpa.

Pedalamos, então, um pouco mais a cada dia, enquanto achávamos o nosso ritmo. Ou com sol queimando a nossa pele ou com a chuva refrescando, vivemos dias felizes juntos na estrada.

Mzungos encontram Maasai

Um dos momentos mais especiais desses primeiros dias foi, sem dúvida, o encontro com um Maasai que nos proporcionou uma experiência inesquecível.

William Mumeita

Uma noite, num hotel de beira de estrada ― e de clientela duvidosa ― em Kajiado, uma cidadezinha ao sul de Nairobi, conhecemos William Mumeita Kipetuan.

Eu e o Dan precisávamos de um lugar seguro para descansarmos, longe do temporal que se estava formando. Estávamos na estação das chuvas, e acampar não era a melhor opção.

Apesar de ser o “Snowball Club & Restaurant” o tipo de lugar que você normalmente evitaria, achamos o que precisávamos: uma cama limpa, um bom chuveiro e uma porta com tranca por um preço muito barato.

Motel of Questionable Clientèle

O dono do bar/hotel pediu para que o vigia noturno nos acompanhasse até o único restaurante aberto na cidade. Tivemos, então, o prazer de conhecer William.

O convidamos para jantar conosco e trocamos experiências sobre nossas vidas. William era o primeiro Maasai que conhecíamos e, por incrível que pareça, nós éramos os primeiros “Mzungos” que ele encontrara.

A nossa vida era tão interessante para ele quanto a vida dele era para nós. Ele achara engraçado o fato de bebermos água gelada e ria docemente, enquanto eu e o Dan queríamos saber mais sobre as fábulas da caça aos leões.

Aparentemente, os Maasai caçam leões em determinados períodos do ano e festejam a vitória vestindo a carcaça do seu nobre e respeitado adversário. Caso um dos Maasai venha a morrer na caça, essa é considerada uma morte honrada.

William nunca matou um leão, mas já esteve algumas vezes presente na caça com um grupo de até 30 homens armados com lanças. Ele já viu leões serem mortos assim como matarem um dos seus. Pela sinceridade e riqueza de detalhes com a qual ele nos contou suas estórias, nós acreditamos.

William nos convidou para visitar a vila onde ele morava e tomar um chá com sua família. Não resistimos ao convite e combinamos de encontrá-lo a 10km de Kajiado, na manhã seguinte.

William mora a 15km de distância de seu local de trabalho e anda o percurso diariamente para vigiar o tal bar/hotel a noite inteira, em troca de alguns poucos reais.

Após pedalarmos 12km e não encontrarmos nosso amigo, vimos um grupo de mulheres Maasai na estrada. Paramos para perguntar se elas conheciam a família Mumeita. Por muita coincidência e sorte, uma das mulheres era a Paninah Kipetuan, a mãe do William. Ela se ofereceu para nos levar até sua casa.

William's Mumma
Following Mumma Maasai

Paninah nos guiou pelo caminho que ela normalmente faz. Uma trilha de terra, com subidas e descidas entre pequenos rios e lama, muita lama. Empurramos nossas bicicletas, energizados pela simpatia e boa vontade da nossa anfitriã.

A essa altura, William nos encontrou e seguimos juntos pelo trajeto escolhido pela Mama Mumeita, que seguiu na nossa frente.

Continuamos empurrando as bicicletas, até que as rodas ficaram com tanta lama (uma lama grossa e pegajosa) que não conseguimos mais empurrar e tivemos que, literalmente, carregar as bikes. Carregar uma bicicleta pesando 35kg com os pés escorregadios na lama, embaixo do sol quente do meio-dia não é fácil.

Muddy Path

O caminho parecia interminável. Eu estava exausta, com calor, me sentindo sem forças para continuar. Minha mente começou então a jogar comigo e a me fazer pensar que eu queria desistir: piscar os olhos e sumir dali! Bastou um olhar cúmplice do Dan para que eu sentisse o choro, preso na garganta, vir com tudo. Respirei fundo, segurei as lágrimas e segui em frente. Não queria ser grosseira com o nosso amigo.

Realmente, sair da nossa zona de conforto é muito importante para ver as mágicas acontecerem.

Ao chegarmos na casa dos Mumeita, a mama Paninah estava nos esperando, pronta para a festa. Vestida com os tecidos vermelho-azulados, típicos das tribos Maasai, suas jóias de miçangas: colares, brincos, braceletes e tornozeleiras. Ela estava linda e feliz por nos receber. Parecia uma rainha.

Maasai Earrings & Jewellery

Entrar na casa deles foi como uma viagem no tempo. A casa era de pau a pique, e dentro era tão escuro que mal conseguíamos ver um palmo à nossa frente. Conforme os olhos começaram a se acostumar com a escuridão, percebemos que havia três pequenas “janelas” ― buracos na parede, do tamanho de uma bola de tênis, permitiam a entrada de uma escassa luz.

Pinhole Window

Com a visão um pouco mais apurada, percebemos que a casa era tão pequena que, provavelmente, caberia ela toda na sua sala. Mesmo assim oito pessoas dividiam aquele espaço e sete crianças foram ali concebidas.

Inside the Mumeita Maasai Home

Tomamos um chá adocicado e começamos a, mais uma vez, trocar experiências. Eles nos ensinavam Kimaasai (língua dos Maasai) e nós os ensinávamos português e inglês. Ao contar em português, William e toda a família cairam na gargalhada, pois acharam o português muito parecido com o chinês (eles têm contato com chineses através da construção civil de estradas).

Portuguese Chinese

As horas foram passando e tínhamos que voltar para a estrada antes de escurecer. Eles gostariam que ficássemos mais tempo (na verdade, nós também), mas precisávamos seguir viagem. Tivemos, então, que nos despedir. Foi uma experiência cheia de charme e carinho que jamais esqueceremos.

Masai Chai
Maasai Language School

Essa experiência nos fez pensar até quando eles vão viver dessa maneira ― não sei quantos Maasai vivem dessa maneira, mas a família Mumeita vive em condições bastante primitivas.

Até quando poderão manter suas terras? O governo da Tanzânia e do Quênia já instituíram programas para encorajar os Maasai a abandonaram a vida semi-nômade a que estavam acostumados. Parece inevitável que os Maasai sejam obrigados a vender suas terras para os grandes investidores africanos. É o famoso progresso.

Deixando de lado a parte política (que não é a minha prioridade aqui), foi um grande privilégio sermos convidados e compartilhar, um pouco, o estilo de vida dos nossos amigos Maasai. Obrigada família Mumeita!

Maasai Family Mumeita

Epic Day

Continuamos a nossa pedalada e acabamos vivendo o que chamamos de “Epic Day”.

You are now entering Tanzania
Acordamos, como de costume, antes do nascer do sol e atravessamos a fronteira do Quênia com a Tanzânia em uma cidade chamada Namanga. Nesse dia entendi as incertezas que a vida na estrada nos reserva.

Logo ao entrar na Tanzânia, pudemos ver que era um país menos desenvolvido que o Quênia e que seria, provavelmente, mais desafiador. A população não fala inglês como no Quênia e, quando paramos na primeira cidade para o nosso segundo café-da-manhã, percebemos que a comida era também bem mais simples e que precisaríamos tentar nos comunicar em Swahili (não tenho orgulho de dizer que ainda não fiz o esforço necessário e totalmente ao alcance das mãos).

Conhecemos nesse momento o “chipsi mayi” ― uma omelete de batata-frita que não seria a minha escolha, mas, sem opção, deliciei-me e voltei a deliciar-me muitas outras vezes ao longo do caminho.

Planejamos nosso dia (comida e água) baseados nas cidades marcadas no mapa, e estávamos planejando a nossa primeira noite acampados. Seria a primeira vez que eu faria “wild camping”.

Lively Little Maasai

A nossa próxima parada seria por volta de 35km. Pedalamos algumas horas e nem sinal de cidade ou, quiçá, um vilarejo. Continuamos a pedalar, 40km, 50km, e ainda não conseguíamos ver a tal cidade.

Orange-lined Road

Comecei a sentir a falta de "combustível". Minhas pernas pesavam e achei que não conseguiria pedalar nem mais 1km. Contudo, com a falta de comida e o pouco de água que nos restava, não tivemos muita opção a não ser continuar a pedalar.

A beleza natural que nos cercava fazia a diferença e dava força: de um lado o Mt. Kilimanjaro e, à nossa frente, o Mt. Meru. Apesar da dificuldade física, essa foi uma das partes mais belas do trajeto até agora. A estrada era de uma beleza impressionante.

Uma pequena lojinha, a famosa birosca no Brasil, no meio do nada, foi uma salvação temporária. Comemos alguns biscoitos e tomamos uma coca-cola quente. Precisávamos seguir.

Já havíamos atingido a distância que tinha sido o meu máximo pedalando até então, 70km, quando começamos a pedalar ao redor do Mt Meru, ou seja, subida, subida e mais subida.

Minhas pernas estavam, a cada pedalada, mais pesadas e, acredito que a essa altura, meu cérebro não funcionava mais direito. Nem me lembro o que se passava na minha cabeça. Só sei que via o Dan preocupado comigo e querendo pedalar sozinho para buscar comida mais adiante, o que neguei, sem dar margem para mais tentativas. Estávamos nessa juntos, e ele estava tão cansado quanto eu. Então, iríamos continuar juntos.

Já era por volta das seis da tarde (estávamos na estrada há cerca de onze horas) e não demorou mais de 30min até encontrarmos um bar, repleto de bêbados, para pararmos e comermos um PF digno de um caminhoneiro faminto. Arroz, feijão, batata-frita e ovo, acompanhados de uma coca-cola, dessa vez, gelada. Foi um alívio instantâneo.

Nesse bar conhecemos o Wilson, um queniano que nos ajudou com o Swahili e nos aconselhou a seguir até Arusha, que ainda estava a 35km de distância e seria o nosso destino do dia seguinte. Ele nos disse que dali em diante era mais descida que subida e que aquele vilarejo não era muito seguro para acampar e não tinha pousadas. Era mais que o suficiente para mim, não iria acampar, iria até Arusha naquele final de tarde.

Meru Hill Silhouette

Tratamos de voltar para a estrada assim que terminamos de comer. Queríamos pedalar o mínimo possível depois que a noite caísse.

Seguimos viagem assistindo a um por-do-sol belíssimo. Conforme anoitecia, eu me sentia tão energizada pelo medo quanto pela comida. O bom e velho efeito da adrenalina natural que liberamos em situações como estas.

A lua, que estava escondida atrás das nuvens, por coincidência ou não, começou a se revelar quando eu, como uma criança em perigo, pedia para minha mãe, onde quer que ela esteja, abrir o céu e deixar a luz da lua me guiar. Pedalamos, então, sob a luz da lua.

Às nove horas da noite (depois de treze horas na estrada), chegamos em Arusha, onde nos presenteamos com um bom quarto de hotel.

End of the 'Epic' Day

Chorei para aliviar o meu peito. Tomei um banho gelado e dormi o sono da vitória. Nesse dia me senti uma vitoriosa. Esse dia foi o nosso “epic day”.

Sketch of Epic Day

Um dia de Safari

Uma vez na Tanzânia, mais precisamente em Arusha, decidimos fazer um Safari. Depois de negociar e chorar o preço para caber no nosso bolso, conseguimos um dia no Lake Manyara (não foi possível barganhar para os famosos Serengeti ou NgoroNgoro).

O Lake Manyara, contudo, é um lugar lindo, e nós amamos o dia. A vegetação é muito parecida com a nossa no Brasil. Não é a típica savana que imaginamos quando pensamos em “safari” na África.

Eu nunca tinha visto elefante, girafa, zebra, búfalo... em seu hábitat natural. Fiquei como uma criança pela primeira vez na Disneylândia. Os leões estavam presentes, mas estavam tão longe que não conseguimos ver direito.

Acho que o melhor é dividir com vocês as fotos desse dia inesquecível. Como eles dizem: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

Same e a magia de uma estrada de terra

Ao voltarmos para a estrada, decidimos seguir a dica de um ciclista inglês, Pete Gostelow, e, em Same, saimos da estrada principal e seguimos por uma estrada de terra entre as montanhas Usumbara.

Pete Gostelow pedalou de Londres até Cape Town, para arrecadar dinheiro para projetos de combate à malária.

Nas primeiras horas do dia, minha mente dançava a música errada. O ritmo era cansativo e turbulento. A estrada de terra parecia um desafio impossível. Precisei parar, respirar e me reenergizar. Estava cada vez mais claro que a mente controla tudo, e que esse seria mesmo um desafio muito mais mental que físico.

Não estar na estrada principal tem suas dificuldades, mas os benefícios são infinitamente maiores. Passamos dois dias pedalando em um cenário deslumbrante. Estávamos cercados de tanta beleza que nem o meu primeiro tombo conseguiu mudar o meu humor e tirar o sorriso constante estampado nos nossos rostos.

Burton-like Baobab

Estar fora da rota turística também tem sua magia. As pessoas te recebem com uma naturalidade, hospitalidade e alegria genuína. Não precisamos dizer todos os “nãos” que somos obrigados normalmente. São pedidos de todos os gêneros, de água à caneta, ou simplemente “Ciao, give me something”. A micro-cultura que existe na maioria dos lugares turísticos.

O que seria uma parada para uma rápida coca-cola gelada virou duas horas de conversa e brincadeiras com as crianças da vila. As pessoas estavam tão interessadas na gente quanto a gente nelas. Essa foi, sem dúvida, uma das melhores partes da saída da rota principal.

Destino: Zanzinbar

Depois de mais alguns dias sob o sol quente e as chuvas fortes da estação, tivemos o prazer da brisa que vem do mar. Encontramos o Oceano Índico e o nosso último destino dessa etapa: Tanga. De Tanga seguiríamos, de barco, para Zanzibar. A próxima etapa seria nessa bela ilha de areias finas brancas e de mar azul turquesa onde iríamos voluntariar pelo próximo mês (ou meses). Mas essa já é uma outra história.