Monday, June 17, 2013

Uganda: Aventuras e desventuras

“A Verdadeira viagem não está em sair a procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos” Marcel Proust

Depois de dois meses em Kampala, voltamos para a estrada na companhia do Malte, um ciclista alemão que conheci em Mbale, norte de Uganda. Depois de muitas alegrias e belas paisagens chegou a hora de nos despedirmos desse belo país e “testar” o meu joelho.

Banda Island

Antes de deixarmos Kampala, voltamos à Banda Island – uma pequena ilha tropical no Lago Victória. Passamos quatro dias no estilo Robson Crusoe: cercados pela bela mãe natureza, caminhadas, nadando no lago e conversas na fogueira sob o imenso céu estrelado.

Moored too Long
Silvery Stalk

Banda Island é tão inspiradora que começamos a imaginar como seria viver em uma ilha, em contato direto com a natureza, plantando nossa própria comida e trabalhando com projetos sustentáveis e educacionais junto à comunidade. Um sonho ainda longe da realidade, contudo um sonho possível de ser adaptado à vida que fomos impostos sem considerar diferentes opções e possibilidades.

Starlight Canopy

As belezas e desafios de um país montanhoso

Uma semana antes de deixarmos Kampala sofri um “acidente” que lesionou o meu joelho esquerdo.

O principal meio de transporte em Kampala são as motos conhecidas como boda-boda – aparentemente as motos eram, antigamente, o único meio de transporte até a fronteira(border) por isso o nome boda-boda (border-border). Engraçado : )

O trânsito em Kampala é caótico e as pesquisas revelam um número assustador em Uganda. Aparentemente, cinco pessoas morrem diariamente no país por conta de acidentes de trânsito.

O meu acidente não foi grave, não colocou a minha vida em risco, contudo, machucar o meu joelho esquerdo teve (e tem) uma importância enorme para mim nesse momento.

Uganda é um país super montanhoso, o que traz paisagens e surpresas incríveis para a pedalada e, também, desafios para o corpo e, no meu caso, para o joelho. No primeiro dia pedalamos 70km de subidas e descidas intermináveis.

Morning Tomfoolery
Sunrise Rushes
Rolling Hills Keep Rolling

Durante esse percurso o meu joelho direito – o joelho no qual tive a primeira lesão, a síndrome da banda iliotibial – estava recuperado, o que foi um alívio e uma alegria. Contudo, o meu joelho esquerdo me mostrou que eu ainda não estava pronta para a estrada depois do acidente. As subidas causam uma pressão muito forte nos joelhos, principalmente por causa do peso das nossas bicicletas.

Pedalamos 80km no segundo dia e então ficou claro que eu teria que me recuperar, mais uma vez, de uma lesão no joelho. Peguei um ônibus até Fort Portal para esperar o Dan e o Malte.

Perched up Passengers
Manu's Fan Club

Diários de Motocicleta

Malte Mekiffer - Explorer Extrodinaire

Fort Portal é uma charmosa cidade à 300km de Kampala, localizada entre as famosas Montanhas Rwenzori (nome que pode ser traduzido como as montanhas que fazem chover) e os Parques Nacionais Kibale e Queen Elizabeth. Uma das principais atrações turísticas são os Crater Lakes (logos formados nas crateras vulcânicas).

Uma vez reunidos em Fort Portal, decidimos alugar motocicletas. Nenhum de nós tinha dirigido uma motocicleta antes, o que não nos impediu de seguirmos adiante e alugar as magrelas motorizadas para explorarmos o Parque Nacional de Kibale e os Lagos de Cratera.

Aparentemente, dirigir uma motocicleta não é difícil e, realmente, não é. Contudo, não seria aconselhável seguir uma trilha no estilo motor-cross no segundo dia, o que a gente inevitavelmente fez.

Riders Ready to Rock

Depois de subirmos alguns metros cercados de uma paisagem belíssima e tomarmos um banho energizante na Cachoeira Mohoma, seguimos em direção aos Lagos de Cratera. O que já era um pequeno caminho de terra se tornou ainda mais estreito, basicamente um caminho para pedestres de apenas 1 metro de largura com um precipício de mais ou menos 80m para um dos Lagos à nossa esquerda. Eu estava tremendo na garupa do Dan, talvez muita aventura para um só coração.

Waterfall Blast
Gazing over the lakes
Quaint Lake House

Alguns metros adiante estávamos, basicamente, perdidos. Decidimos que seria melhor seguirmos em frente ao invés de voltarmos pelo insano caminho que tínhamos passado. Simpáticos ugandenses nos direcionou para o caminho “certo” o que nos levou à uma travessia em um pequeno riacho – era tudo o que precisávamos.

As mulheres que lavavam suas roupas nos ajudaram com as motocicletas, porém ainda tínhamos uma subida super íngreme antes do alívio da estrada de terra – nunca achei que acharia uma estrada de terra um alívio.

Decidi subir andando enquanto o Dan e o Malte decidiram dirigir as magrelas. A aventura ainda não estava no fim. Ao tentar desviar de uma pedra o Dan caiu em um pequeno precipício, por sorte, a vegetação o segurou impedindo uma pequena tragédia. Felizmente as “lavadeiras do rio” nos ajudaram e o único prejuízo foram dois espelhos quebrados.

Depois de concertamos os espelhos da motocicleta demos um mergulho no Lago para reenergizar e voltamos sãos e salvos.

View on the 20,000 Shilling Note

Homem Primata

Gaze of Evolution

Em Fort Portal decidimos “nos presentear” com a caminhada no Parque Nacional Kibale para vermos os chimpanzés em seu hábitat natural. Foi um experiência maravilhosa. Incrível ver as semelhanças genéticas que temos com esse inteligente e fascinante primata.

Reaching for Fruit

Adoraríamos poder fazer a caminhada para ver os gorilas, mas infelizmente o preço não cabe no nosso “budget”. Mesmo sem poder financiar essa caminhada, me sinto na obrigação de defender os preços altos, uma vez que tive a oportunidade de estar em contato direto com pessoas que trabalham com a preservação dos gorilas em Uganda e Ruanda. O preço alto faz não só com que a frequência turística diminua mas proporciona um trabalho de preservação maravilhoso. Quando o projeto começou a espécie estava em extinção e haviam menos de 50 gorilas na região, hoje, após 15 anos de trabalho o número cresceu para 140.

Still Being
Chimp: Ears of our Ancesters
Chimp Up

Mais montanhas, mais dor, mais despedidas

Tentei deixar Fort Portal pedalando mas depois de apenas 30km percebi que, se não parasse, poderia lesionar seriamente o meu joelho. Seria mais prudente ter paciência e me recuperar direito antes de me aventurar nas montanhas de Uganda.

Infelizmente não tive a oportunidade de explorar esse lindo país com a minha Pretinha(nome da minha bicicleta). Tive que, mais uma vez, me aventurar nos ônibus e kombis africanas.

Me despedi do Dan e do Malte e segui viagem até Kabale, cidade que faz fronteira com Ruanda.

Equator Face Off

O acidente

Deixei o Dan e o Malte para o que seria um dos percursos mais desafiadores da viagem. Eles teriam que subir quilômetros intermináveis em estradas de terra cercados por colinas e vales. As recompensas de estradas montanhosas são inquestionáveis, é onde se tem as mais belas paisagens.

No último dia antes de chegarem em Kabale, depois de dois dias exaustivos na estrada, e 70km de subida íngreme eles não acharam lugar para dormir e tiveram que pedalar mais 5km até a cidadezinha mais próxima. Por estarem, realmente sem energia alguma, o Dan e o Malte seguraram em um caminhão – prática comum entre ciclistas em circunstâncias como essas. Contudo, sempre seguramos na traseira de caminhões mas como o Malte tinha menos experiência, o Dan decidiu deixá-lo na traseira e segurou no meio do caminhão.

O guidom da bicicleta do Dan prendeu no caminhão quando o motorista mudou a marcha e a bicicleta dele acabou debaixo das rodas de um caminhão de 2 toneladas. Por sorte, ele conseguiu pular da bicicleta, evitando o que poderia ter sido um acidente com sérias consequências.

Lição aprendida: Se for segurar em um caminhão, tem que segurar na traseira e não no meio!

Por sorte a parte danificada da bicicleta foi a parte da frente e não a traseira – que é a parte mais cara e mais difícil de consertar. Habaqua (a bicicleta do Dan) começou sua cirurgia de reparo.

Reflexões e Perspectivas

Toda essa “aventura” mexeu demais com as nossas emoções, nos fez refletir sobre os riscos que nos colocamos sem pensar nas consequências, de forma quase inocente. Precisávamos de uns dias de reflexão e calma.

Fomos para o magnífico Lago Bunyonyi, um dos lugares mais belos que já visitei. Passamos quatro dias no Camp Amagara. Foram dias tranquilos, em contato com a natureza, banhos no gelado lago e noites estreladas.

É claro que acidentes acontecem e nada é suficientemente seguro, os danos e ganhos de se viver uma vida intensa, depende da perspectiva a qual olhamos para os acontecimentos. Não queremos viver privações por medo. Contudo, é preciso também coragem para encontrar o equilíbrio no aprendizado e seguir com positividade e também cuidado.