"Pior que não terminar uma viagem é nunca partir” Amyr Klink
Seis meses depois daquela tal sexta-feira, chegou o dia da nossa partida. Estávamos na casa da mãe do Dan, onde deixei “meus discos, meus livros e nada mais”. Parecia um sonho, mas era realidade: estava indo para a África sem saber se terminaria o que tinha me proposto a fazer e sem data para retornar.
Tínhamos apenas algumas horas a mais em Londres, e meu coração melancólico já sentia saudades. Sentia a insegurança que acompanha a impulsividade. Estava com medo da realidade que estava à minha frente. E a mente, de forma perigosa, fazia-me questionar minha decisão. Acho que estava com medo de “falhar”.
Almoçamos em família, e a Carolyn, “Mumma Harrison”, uma mulher forte e doce, minha querida sogra, levou-nos até o Heathrow. Com lágrimas nos olhos e um abraço apertado, nos despedimos, com os votos de boa viagem recheados de amor incondicional de mãe. Abria-se, então, uma nova vereda.
Já dentro do avião, o abraço forte do Dan trouxe as lágrimas contidas até então. Chorei de alívio por poder chorar, chorei de emoção, de saudade da minha mãe, um choro de uma criança que quer colo. Chorei o meu medo. Depois das lágrimas veio o sorriso e então sorri de felicidade, sorri o amor que estávamos sentindo, a energia boa recebida por tantas pessoas queridas, sorri o sorriso da liberdade. Sorri a minha coragem.
Chegamos em Nairobi, no Quênia, em uma terça-feira quente e ensolarada. Não tinha dormido muito durante a viagem e não conseguia raciocinar direito; estava realmente exausta. No entanto, os sorrisos recebidos nos recepcionaram muito bem e fizeram com que eu me sentisse menos cansada e muito mais relaxada. Foi um belo “Karibu” (Bem-vindo em Swahili). Os africanos sabem sorrir e têm os sorrisos mais belos que podia imaginar, o que tem feito a diferença em diversos momentos.
Na imigração, fomos recebidos por funcionários bem humorados que nos disseram que o visto era caro, pois o governo era corrupto. Acho que foi a primeira indicação de que não estaria “muito longe” de casa.
Meu corpo e minha mente estavam sendo tomados pelo cansaço, agravado pelo calor úmido de Nairobi. Esses últimos anos em Londres, sem visitar o Brasil, tinham me tornado um pouco “gringa”. Dirigi-me à primeira cafeteria que encontrei para sentar, comer alguma coisa e tomar um café, enquanto o Dan tentava achar um taxi para nos levar até a casa de nosso anfitrião, o Nobert. Ele é voluntário para o projeto que o Dan ajudou a começar na Síria, Bidna Capoeira, que ensina capoeira para crianças em campos de refugiados, reformatórios, escolas.
O taxista era o Charles, um senhor super simpático que nos mostrou a hospitalidade queniana. Tivemos bastante tempo de conhecê-lo, uma vez que o trânsito em Nairobi, em dia normal, é comparável à estrada para a região dos lagos na sexta-feita de Carnaval. O percurso que, sem trânsito, duraria 20 minutos, durou 2 horas.
Pela janela do carro, comecei a conhecer o primeiro lugar que estive na África. Uma das cidades mais desenvolvidas e ocidentalizadas desse imenso continente (com exceção da África do Sul, é claro) já se mostrava bastante contraditória. Olhando para as construções contemporâneas espelhadas e cafonas que se fazem presente em qualquer grande cidade do mundo, parecia que estávamos em São Paulo ou na Barra da Tijuca. Mas foi só olhar mais de perto para ver as feiras de comida e roupa; as mulheres andando com o guarda-chuva para se protegerem do sol; as ruas esburacadas e as ruelas de terra batida, meninos e meninas de pé no chão para que eu me sentisse em uma cidadezinha no Nordeste do Brasil. Estava, realmente, “muito perto” de casa, e esse fato me trazia um conforto inestimável.
Estávamos conversando sobre educação e cultura com o Charles, e quando perguntei sobre os costumes das tribos quenianas, a resposta foi: “Isso não é muito importante, agora nós vivemos os tempos modernos”. Não pude esconder a minha frustração sobre esse tal “tempos modernos”.
Dias depois recebemos uma mensagem do Charles dizendo que ele desejava que estivéssemos nos divertindo em Nairobi.
Depois de tanta correria em Londres, nos permitimos uma preguiça macunaímica: longas noites de sono, filmes com pipoca, leituras no sofá, siestas e comidas dignas da realeza.
Um amigo do Dan, e grande conhecedor de hambúrguers, Kenny, recomendou-nos o Hambúrguer do Java Coffee House, e nós nos deliciamos com a dica. Kenny juntou-se ao Better Life Cycle no Egito e terminou sua pedalada em Cape Town a tempo de estar em Londres para as Olímpiadas. “Well done Kenny G”!!!
O Nobert, sabendo da nossa fraqueza pela gula, levou-nos a uma churrascaria chamada Gaúcho: o Dan ficou maravilhado! – mal sabe ele o que o espera em uma churrascaria no Brasil : )
Os dias estavam passando, e, com eles, o desejo de cair na estrada estava ficando cada vez mais forte. Decidimos montar minha Pretinha e cuidar da Habaqa para que ela ficasse pronta para mais aventuras. Comecei, então, a aprender sobre a mecânica das bicicletas.
Estava tudo pronto para deixarmos Nairobi, estava ansiosa, queria conhecer o desconhecido. Queria provar para mim mesma que eu era capaz e forte o suficiente para tal empreitada. Contudo, estávamos na estação das chuvas, e acordar seis horas da manhã para pedalar, contraditoriamente, parecia-me um pouco demais, “ - Ai que preguiça” - gritava o anti-herói dentro de mim.
Não resistimos e aproveitamos para lavar a alma com um banho de chuva. Lembrei com carinho dos banhos, nos temporais do verão carioca, com meus irmãos. Estaríamos prontos e devidamente energizados para o começo da vida “On the Road”.





