Monday, January 30, 2012

Antes do começo

“Existe o risco que você não pode jamais correr, e existe o risco que você não pode deixar de correr.” - Peter Drucker

Há mais ou menos três anos, decidi deixar o Rio de Janeiro e ir morar em Londres para ter novas experiências, estudar inglês e, quiçá, cursar um mestrado.

Entre altos e baixos, “London Town” presenteou-me com momentos inesquecíveis: bons amigos, boa música, risadas leves, lágrimas tristes, parcerias eternas, experiência profissional, dias de verão nos parques, festivais, muitas pints, a beleza alaranjada do outono, um frio de doer a espinha, tombo na neve, o cinza do inverno, as flores da primavera e o meu grande amor.

Em uma sexta-feira não muito promissora, entre o meu cansaço e a idéia dolorosa de ter que trabalhar às 8 da manhã do dia seguinte, decidi prestigiar a festa de uma amiga querida. Nenhuma outra sexta-feira fez tanta diferença na minha vida antes dessa. Em uma amigável conversa, conheci o Dan, um inglês que estava morando na Etiópia. Na Etiópia? Pera aí, o que estaria ele fazendo na Etiópia? Voluntariando-se para uma organização local, que trabalha com órfãos e crianças das ruas de Gondar.

Quando perguntei como surgiu a idéia de ir morar na África, ele contou-me sobre seu projeto de pedalar de Londres até Cape Town (Better Life Cycle), voluntariando-se para ajudar em boas causas pelo caminho, e que só estava em Londres para tratar de um problema na coluna. Seu retorno para a África se daria em três semanas.

Estava realmente maravilhada por esse ser humano, quando um beijo inesperado mudou as nossas vidas. Desde aquela sexta-feira, passamos todo nosso tempo livre juntos, com o medo da inevitável e breve separação – o que, depois de dois adiamentos no voô, não aconteceu. Um sentimento muito forte, mas ao mesmo tempo leve, nos impedia de dizer “tchau”: estávamo-nos amando.

O convite já estava feito, e eu não demorei a aceitar. Iríamos terminar essa jornada juntos.

Não podia deixar o medo me impedir de tentar. Mesmo parecendo uma insanidade, viajar pela África de bicicleta – tendo pedalado somente, ou para ir de casa até a praia, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, ou, em Londres, de casa até o trabalho, ou ao pub em Camden Town. Mesmo sabendo que seria um desafio físico e metal; mesmo sabendo que estaríamos, eu e o Dan, correndo o risco de descobrirmos que éramos melhor amigos que amantes, ou que essa vida nômade simplesmente não era para mim. Estava prestes a mergulhar no desconhecido, e estava feliz.

Nietzsche, na teoria do Eterno Retorno, diz que o eterno é essa vida: as experiências vividas, hoje, que se repetirão eternamente. Se essa complexa teoria estiver certa, e fizermos escolhas nas quais acreditamos que nos trarão felicidade, seremos eternamente felizes. Ou, se, mais simples que isso, aceitarmos que a vida é realmente curta, e que precisamos sentir mais, acreditar mais e abrir o coração para o novo e o diferente, os medos tornar-se-ão menores, e a vida muito mais leve.

Poderia ficar aqui falando sobre minhas teorias, sobre o medo e a coragem, ou sobre essa busca pela felicidade, inerente à raça humana, no intento de explicar as minhas escolhas... mas acho desinteressante (e quase uma ego-trip)!

Nada me impedia, nada me prendia à Londres, e a vida estava me dando a oportunidade de me aventurar livremente. A oportunidade de me doar, doar o meu tempo e o meu conhecimento para ajudar o próximo. A oportunidade de desbravar a Terra-Mãe, a diversidade e a beleza desse continente, que é o “berço da humanidade”... eu não deixaria nem essa chance, nem o meu amor me escapar por entre os dedos. Começaram os preparativos e o “farewell to London”.