“Um dia de cada vez, que é para não perder as boas surpresas da vida” Clarice Lispector
De volta ao continente
Ao deixarmos Zanzibar já sabíamos que o nosso próximo destino seria Naivasha, uma cidade a 80km ao norte de Nairobi, Quênia. O projeto que o Kenny havia ajudado, e se apaixonado, Life Beads Kenya, esperava por nós.
O barco que pegamos em Nungwe, no norte de Zanzibar, nos deixou em Pagani, a mesma cidade onde pegamos o barco “local” que nos levou à “Spice Island” quatro meses antes.
Pedalamos novamente até Mombassa, pela costa. Como já havíamos pedalado esse percurso, decidimos pegar o histórico trem colonial, construído por indianos por volta de 1903, que liga Mombassa à Nairobi. Foi uma experiência bem interessante. A viagem dura entre 14 e 16 horas. O trem é velho e ainda tem características do período colonial. Ao amanhecer passamos pelo Tsavo National Park acompanhados por uma bela vista e por algumas zebras.
Apresentando: Life Beads Kenya
Kenny G, o amigo do Dan que se juntou ao Better Life Cycle no Egito e terminou sua pedalada em Cape Town no ano passado, nos apresentou ao Life Beads Kenya. Kenny passou seis meses em Naivasha onde ajudou em diversos projetos.
Chegamos em Naivasha cheios de energia para nos voluntariarmos para o Life Beads Kenya. Minalyn, uma Fillipino queridíssima, fundou essa social-enterprise em 2006, no quintal da sua casa para ensinar trabalhos com miçangas, couro e kikoy (um tecido colorido típico do Quênia) para mulheres excluídas socialmente (ex-prisioneiras, ex-prostitutas, mulheres contaminadas com o vírus da Aids) e também orfãos e ex-meninos de rua. Eles produzem bolsas, jóias e peças decorativas.
Life Beads Kenya é uma organização sem fins lucrativos, todos os lucros são revertidos para a manutenção e continuação do projeto que além de um salário, o que os proporciona independência financeira, oferece aulas de inglês e a possibilidade da quebra do cliclo de pobreza – um dos maiores problemas na África.
Peter, o marido da Minalyn, é um médico formado em Londres que, além dos atendimentos remunerados, abriu uma clínica, também no quintal da casa, para atender pessoas que não têm meios de pagar por um bom atendimento médico.
Peter e Minalyn têm dois filhos, Sandy e Jesse. Essa família querida nos recebeu maravilhosamente bem. Nos sentimos parte da família desde o primeiro instante.
O Life Beads Kenya, como outros projetos pequenos, não gera lucros suficiente para se manter. O projeto sobrevive com a ajuda generosa do Peter ou “daktari”, como é conhecido.
Com o intuito de ajudar não só o projeto, mas também a família, que sofre com as necessidades do projeto, o Dan trabalhou incansavelmente com a Minalyn para organizar a parte financeira e administrativa do Life Beads – a parte mais racional de administrar uma organização parece mesmo ser um martírio para fundadores de pequenos projetos.
Além do trabalho que o Dan realizou com a Minalyn, nós decidimos, através do Better Life Cycle, reformar a pequena lojinha do Life Beads Kenya, que parecia mais um quartinho de estoque que uma loja.
E também produzimos um pequeno vídeo promocional para ajudá-los na divulgação e angariação de fundos para o projeto.
Uma pequena viagem interna
Durante o período em Zanzibar muitas dúvidas povoaram os meus pensamentos. Pela primeira vez, em muitos anos, estava tendo tempo para pensar nos caminhos que segui na minha vida. Estava tendo tempo para questionar as minhas escolhas, analisar os rumos que tais escolhas tomaram e o quanto eu estava feliz, ou não, com tais escolhas.
Uma das grandes questões para mim era com relação à minha escolha profissional. Durante a faculdade, em uma aula de filosofia na qual estudei os livros de Deleuse sobre montagem – A imagem Tempo e A Imagem Movimento – me apaixonei pela teoria filosófica da edição de imagem.
Nesse período trabalhava com um projeto de inclusão social na Zona Leste de São Paulo. Deixei o trabalho e a cidade para retornar ao Rio de Janeiro e trabalhar com pós-produção de vídeos, alimentando o sonho editar documentários.
Tive a sorte de trabalhar em grandes empresas, aprender com excelentes profissionais e conhecer pessoas maravilhosas, muitas delas se tornaram meus grandes amigos, verdadeiros irmãos de alma. Contudo, já nos primeiros anos, percebi que a teoria filosófica e a realidade eram bastante diferentes. E que, apesar de achar a edição de imagens fascinante, não tinha mais tanta certeza se eu queria passar os próximos 30 ou mais anos da minha vida trabalhando em uma sala escura em frente ao computador.
Comecei então a questionar o que realmente me dá prazer, sem pensar nas consequências financeiras. Me permiti voar na minha imaginação, me permiti sonhar o que, aparentemente, poderia parecer impossível. Deixei todos os meus medos de lado para sentir profundamente o que meu coraçãos e sentimentos me diziam.
Me fiz muitas perguntas e algumas das respostas foram: Adoro crianças e adoraria trabalhar com elas; acho psicologia super interessante; acho os movimentos do corpo fascinantes; acredito que a consciência corporal ajuda muito na relação com a psiquê; quero desenvolver minha espiritualidade, adoraria poder trabalhar com projetos sociais e por fim estou amando os benefícios que a yoga trazem para a minha vida.
A conclusão de tudo isso foi: Quero ensinar yoga para crianças, quero usar a yoga e a psicologia corporal (psicomotricidade) como forma de “terapia”.
Diante de tais pensamentos comecei a pesquisar possibilidades de ir para Índia estudar yoga e meditação. O Dan foi maravilhoso, me apoiou com todas as forças nesse meu “novo projeto”.
Como yoga está, digamos assim, “na moda”, não queria correr o risco de ir para uma oficina de yoga na Índia. Queria ir para um Ashram que realmente estivesse em sintonia com os meus pensamentos e ideais. Depois de uma longa pesquisa percebi que todos os Ashram que eu gostaria de ir estavam, ou lotados para o próximo retiro, ou não tinham retiros para a data que eu poderia ir – A passagem do Quênia para Índia é bem barata e eu aproveitaria esse período no qual o Dan estaria trabalhando para o Life Beads Kenya para me aventurar pela Índia.
Aceitei que talvez esse não seria o melhor momento para embarcar nessa viagem e então estudaria e praticaria sozinha até achar um novo momento. Também queria aproveitar essa viagem maravilhosa na qual estou, não podemos abraçar o mundo de uma só vez. Com o coração tranquilo e aberto aceitei as impossibilidades e surpresas do momento. Afinal de contas eu estava, e estou, tendo uma das experiências mais grandiosas da minha vida.
Mais uma vez a vida me mostraria que nada acontece por acaso.
Leia AQUI o post sobre o trabalho que tive a oportunidade de realizar em Naivasha : )
Conto de Fadas
Durante o período que passamos em Naivasha, o Dan foi “contratado” para fotografar uma rede de hotéis e como “pagamento”, visitaríamos os mais famosos Parques Nacionais do Quênia, com hospedagem e “Safari” incluídos.
O que já nos parecia incrível, se tornou muito melhor que o esperado. Além da hospedagem e dos Safaris para mim e para o Dan, tivemos a oportunidade de convidar o Rob, um dos melhores amigos do Dan, que veio para o Quênia para nos acompanhar nessa viagem dos sonhos.
Começamos o conto de fadas em Nairobi onde visitamos um centro de proteção e preservação de diferentes espécies de girafas – “Giraffe Sanctuary”.
Apesar de turístico, o centro é uma experiência imperdível. Tivemos a oportunidade de tocar as girafas e alimentá-las. Nunca tinha imaginado fazer carinho na cabeça de uma girafa! Até “beijinho na boca” recebemos das nossas amigas : )
Do “Giraffe Sanctuary” seguimos para o orfanato de elefantes. O orfanato protege elefantes bebês que perderam os pais até que eles estejam prontos para voltar para a selva. Também é uma experiência incrível, contudo, a interação com os grandes-pequenos é bem menor.
De Nairobi seguimos, com o motorista que a empresa disponibilizou para nós, o queridissimo Elfas, para Amboseli.
Assim que chegamos, a primeira e mais impressionante das vistas se revelaria para nós. Estávamos de frente para essa montanha colossal com o cume coberto de uma fina manta branca de neve. Foi emocionante estar de frente para o monte Kilimanjaro, o ponto mais alto da África. Essa seria a nossa vista pelos próximos quatro dias.
Amboseli é uma planície vasta, sem muitas árvores. A típica savana africana. A paisagem é linda e a tranquilidade externa transforma-se em paz interior.
O nosso primeiro dia de Safari foi no pôr-do-sol. A silhueta das zebras ao longe, a cor alaranjada do céu, a poeira e algumas árvore no canto dessa “pintura” fez com que eu me transportasse para o filme O Rei Leão – impressionante!!!
A grande surpresa de Amboseli foi, sem dúvida, os elefantes. Eles foram os atores principais. Em um momento do passeio estávamos cercados de elefantes por todos os lados. Elefantes de todas as idades e tamanhos. Acompanhamos de perto os movimentos da matriarca conduzindo a manada. Foi mágico e esse era só o começo.
Seguimos viagem para o Parque Nacional Tsavo Leste. Tsavo é um dos mais antigos e maiores parques do Quênia. A paisagem em Tsavo Leste é forte e impactante. O clima semi-árido me lembrou o Nordeste brasileiro.
Para o deleite dos turistas, os donos do lodge onde estávamos hospedados, construíram dois grandes buracos no chão onde a água é coletada (ou armazenada) atraindo os animais sedentos. Esse foi o grande espetáculo em Tsavo. Enquanto comíamos, admirávamos o movimento de búfalos, elefantes, baboons e gazelas que vinham se deliciar com esse elemento essencial para a vida e tão escasso naquela período – Surge então a clássica pergunta, porque o homem, o animal mais perigoso da selva, destrói a sua casa de maneira tão devastadora?
O “Grand Finale” dessa inesquecível viagem seria no que é considerado o maior parque nacional do Quênia com relação a vida selvagem: O Maasai Mara.
O Maasai Mara foi realmente o ponto alto do nosso “Safari”. Já mesmo no lodge conhecemos um grupo de funcionários super simpáticos que fizeram da hospitalidade queniana um das mais prazerosas até o momento.
A liderança dessa hospitalidade ficou por conta do chefe Moses, uma lenda viva que ao se despedir nos aconselhou, a mim e ao Dan, a chamarmos o nosso filho de Moses para nunca o esquecermos : )
Durante os passeios guiados por um próprio Maasai, Peter, vivemos um verdadeiro sonho. A quantidade de animais no Maasai Mara é incrível. Milhares de animais: wildebeest; gazelas; zebras; girafas; hienas; elefantes; hipopótamos; crocodilos; uma diversidade de pássaros impressionante, chita(guepardo)...
... e o rei da selva: vários leões e leoas para satisfazer o nosso desejo de ver esses felinos de perto, tão perto que assustou.
Como se tudo isso não fosse suficiente, tivemos a surpresa maior que foi um passeio de balão nessa linda savana africana – um sonho realizado!
Acordamos cedo e vimos o sol nascer do alto. Por sorte, ou desventura, acompanhamos a migração dos wildebeest, um dos grandes movimentos migratórios da África e grande atração turística. Digo por desventura pois não é o período que eles normalmente migram, mas como o clima no planeta está tão perturbado pelas ações humanas, a chuva “atrasou” esse ano, então eles voltaram do seco Serengeti, na Tanzânia, para a rica vegetação do Maasai Mara.
Foi magnífico. Confesso que tenho dificuldade de expressar os meus sentimentos com palavras. Foi, realmente, uma viagem dos sonhos.
O Maasai Mara foi, sem dúvida, um “Grand Finale”.
3.0
O Aidan, meu ex-flatmate em Londres e amigo-irmão, veio passar o meu aniversário comigo na África. Fomos buscar ele e sua namorada, Maria, em Nairobi onde celebraríamos meus 30 anos.
Alugamos um apartamento super gostoso em Nairobi e nos presenteamos com bons jantares – coisa não tão comum nessa viagem.
No dia do meu aniversário acordei com um dos melhores presentes que já recebi na vida. O Dan, juntamentos com meus amigos, fez um vídeo me desejando parabéns. Acordei com a voz e rosto das pessoas que eu amo cantando parabéns para mim, inesquecível!
Tivemos um dia calmo e uma noite bohêmia, com direito a cerveja gelada e caipirinhas. Foi um final de semana delicioso comemorando meu aniversário entre amigos, nada melhor!
























































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