“Se eu tivesse mais alma para dar, eu daria”
Djavan & Caetano Veloso
Chegamos em Naivasha em uma sexta-feira. Durante o jantar conversei com a Minalyn sobre a minha idéia de ensinar yoga para crianças. No sábado de manhã, ela me apresentou um amigo. O tal amigo, Padre Makarios, queria conversar comigo...
Sentamos para um café e uma das suas primeiras frases foi: “Acabei de abrir um centro para crianças que sofreram abuso sexual, você não gostaria de trabalhar comigo? Adoraria se você pudesse ensinar yoga para eles!"
Meu coração parou por um minuto e senti as lágrimas vindo nos olhos. Mal podia acreditar no que estava acontecendo. Olhei para o Dan, ele sorriu, me abraçou e disse: “Viu, nada acontece por acaso”. No mesmo dia fui visitar o centro.
St Therese Development Centre é uma organização que abriga e oferece apoio psicológico e educação para crianças que sofreram abuso sexual. O principal patrocinador do projeto é a diocese de uma igreja católica no Canadá.
Apesar de terem espaço para abrigar 60 crianças, quando eu cheguei eles tinham apenas 13. Enquanto eu estava no centro outras 9 crianças chegaram, no momento, eles abrigam 22 crianças.
Duas casas foram construídas para o projeto. Uma delas é onde as crianças e voluntários vivem, um verdadeiro lar, com espaço reservado para as refeições e salas para o trabalho de psicologia realizado com as crianças. A outra casa que eles têm, é onde funciona a escola e, em um futuro próximo, um workshop para mulheres que também sofreram abuso sexual.
O time é formado pelo Padre Mak, que administra o centro; Danator, a assistente social que é uma “mãezona” para as crianças; Adrej, um dedicado voluntário da Slovakia, que ficará no Centro por um ano; Frank, um educador infantil que também se voluntaria como administrador da escola e professor, ele ficará no centro por um, quiça dois, anos. Durante alguns meses o time contou também comigo e alguns voluntários que vem e vão.
Depois da conversa com o Padre Mak eu passei o final de semana inteiro com uma mistura de sentimentos. Parte de mim estava em êxtase com a idéia de aprender na prática e a outra parte estava com medo, medo de não conseguir realizar o que havia me comprometido.
Enfrentando o meu medo, na segunda-feira às oito da manhã eu estava no centro. Como eles estavam com poucos voluntários/funcionários o Padre me perguntou se eu gostaria de ensinar inglês para as crianças menores, sem dúvidas a minha resposta foi positiva.
Comecei então a ensinar inglês para cinco das crianças e me apaixonei. O trabalho na escola Montessori, em Zanzibar, me ajudou muito. Nós cantávamos musiquinhas e aprendíamos sons e letras. Pintávamos as cores. Não foi fácil ensinar inglês, que não é a minha língua, para crianças que falam Swahili, língua essa que não falo. Mas com crianças, especialmente, nas idades entre 4 e 6 anos, tudo é muito simples, um sorriso e um “yes” resolvem tudo : )
Naquela mesma segunda-feira depois da escola, tivemos a nossa primeira aula de yoga. Lá estava eu, diante de treze crianças que não me conheciam, que não falavam inglês... Estava nervosa. Respirei fundo e repeti para mim mesma: “Eles são crianças e querem se divertir, então vamos nos divertir”
Pedi ajuda para a Purity, uma das voluntárias que estava no centro naquele mês, para me ajudar com a tradução. Coloquei uma música e começamos a nossa primeira aula. A hora fluiu com um rio calmo. Rimos, cantamos juntos, imitamos um monte de bichinhos e uma relação de amor nasceu naquele momento.
Durante os três meses que passamos em Naivasha, eu ia para o centro todos os dias de segunda a sexta. Ensinava inglês para as menores todos os dias e tínhamos yoga segundas, quartas e sextas. Com o tempo fui me familiarizando com as necessidades de cada um dos “meus pequenos”, entendi os limites de cada um, aprendi a entender cada olhar e foi, sem dúvidas, umas das experiências mais marcantes da minha vida.
Depois de apenas algumas semanas, era só eu chegar que eles já vinham correndo e dizendo: “Teacher, today is yoga?”. Eles também se apaixonaram e esse fato me deixava feliz.
Foi uma vitória ver o brilhinho nos olhos de cada um deles, ver que eles estavam se divertindo durante as aulas. Mas a maior vitória, sem dúvidas, foi ver uma das meninas - que era tão tensa que não conseguia cruzar as perninhas ou esticá-las - cruzar os calcanhares e gritar meu nome com um sorriso enorme no rosto para me mostrar que ela estava cruzando as perninhas. Uma experiência sem preço.
Não foi fácil para mim, não só pelo desafio das aulas, mas também por “sofrer” com cada história que ouvia. O ser-humano é capaz de cada crueldade que fica difícil aceitar. Tive pesadelos, crises de choro. Até que entendi que se quero, realmente, ajudar crianças que sofreram traumas preciso me distanciar emocionalmente, mesmo que isso seja bastante difícil para mim. Decidi não mais ouvir as histórias e ver aquelas crianças apenas como crianças.
A partir desse momento tudo ficou bem mais leve e fácil. É impressionante a força dessas crianças. Apesar de todo o trauma, são crianças amorosas, solidárias, generosas e alegres. Eu me apaixonei por cada um deles de forma individual. Aprendi demais.
O momento de dizer “tutaonana badai” - até breve em Swahili – estava chegando e a idéia de deixá-los sem a aula de yoga estava quebrando o meu coração.
Enquanto eu pesquisava sobre yoga no Quênia, encontrei um projeto que oferece formação de professores de yoga para quenianos e tem projetos sociais em escolas, reformatórios e favelas em Nairobi - Holistic Community Kenya. Acabei me envolvendo com o projeto e, eu e o Dan, fizemos um vídeo para promover a Holistic Community Kenya - HCK.
Holistic Community Kenya vai continuar o trabalho que comecei em Naivasha. Me deixa imensamente feliz saber que as crianças do St Therese Development Centre continuam com as aulas de yoga, agora pelas mãos da querida Sheila Otieno e Samuel Sassupta.
A questão do abuso sexual no Quênia é seríssima. O problema não vive somente na doença ou maldade humana. O problema está na ignorância, na falta de educação e acesso. Existe uma crença popular que diz que se você é HIV positivo e tem relação sexual com uma criança pequena virgem, você se cura. Como educar essa população? Como provar que isso não é verdade? Como “tirar” a esperança de uma pessoa desesperada por cura?
A pobreza e o alcoolismo também são fatores importante para a perpetuação desse crime.
É muito triste essa realidade, pois na última pesquisa do CRADLE, uma fonte respeitosa, os números são assustadores. No Quênia, 79% das meninas ao completarem 15 anos, sofreram abuso sexual. E os números para os meninos é tão alto quanto.
Segundo a pesquisa do CRADLE, os números continuam a crescer.
As novas gerações estão sendo educadas com relação a essa questão. Folheando um livro do ensino primário, pude ver assuntos que nunca estudei na escola, como por exemplo a questão do abuso sexual e a informação de que você não se cura do vírus da Aids através da relação com crianças.
St Therese Development Centre oferece oportunidades que essas crianças jamais teriam, mesmo se nunca tivessem sido abusadas. Dentro do centro eles recebem um ensino superior à escola pública queniana, recebem uma alimentação equilibrada, têm disciplina, responsabilidades e carinho. Sinto orgulho de ter feito parte dessa família!
Apesar de contarem com alguns patrocinadores, o centro está sofrendo para abrigar mais crianças mantendo o mesmo nível de qualidade que eles se propuseram a oferecer. Espero profundamente que eles possam se manter e oferecer abrigo para mais crianças. Sou testemunha do trabalho maravilhoso que eles realizam.

















Voce, Manu e o Dan.. entraram para os meus pedidos diários de proteção e realizações.
ReplyDeleteJay!!
Alice