"Se meus joelhos não doessem mais" O Rappa
Depois de quase cinco meses em Naivasha, voltamos para a estrada, onde eu enfrentaria um desafio como nenhum outro vivido até então – os limites que o corpo impõe.
O primeiro desafio: a dor
Deixamos Naivasha com a idéia de pedalarmos distâncias curtas para nos acostumarmos novamente com o ritmo da estrada. Estávamos indo em direção à fronteira com a Uganda, nossa próxima parada.
No primeiro dia pedalaríamos 70km até Nakuru, em uma estrada relativamente plana, o que torna a viagem muito mais fácil. Estávamos felizes em voltar para a estrada.
As primeiras horas do dia foram uma delícia. Era uma manhã bela e fresca, a estrada estava calma, sem muito trânsito. A natureza em Naivasha é vasta, muito verde e montanhas ao longe. Estávamos inspirados, trocamos alguns sorrisos e continuamos num ritmo agradável.
Após algumas horas tivemos que parar, meu pneu estava furado. Paramos no acostamento sob o sol intenso da África. Enquanto trocávamos o meu pneu percebi uma dor na lateral externa do meu joelho direito. Não dei muita importância e continuamos a pedalar.
Pedalamos mais uns 15km e paramos para “reabastecer”. Em uma “birosca” na beira de estrada encontramos o que precisávamos: uma coca-cola gelada e mandazis (um bolinho africano que parece o um pão doce sem recheio).
Mais um pneu furado e o que seria uma parada de dez minutos acabou sendo meia hora ou mais. Nesse momento eu sentia uma dor mais forte no joelho e comentei com o Dan, que me aconselhou a pedalar com a perna mais em 90 graus pois eu estava pedalando com as pernas mais abertas e isso poderia estar causando um pressão maior no meu joelho.
E assim foi, continuamos a pedalar. Eu continuei a sentir o meu joelho, mas como o sangue estava quente, a dor não me impediu de continuar.
Ao chegarmos em Nakuru, paramos para procurar um lugar para nos hospedarmos. A essa altura a dor estava quase insuportável. Precisávamos pedalar mais alguns metros até a “guesthouse” e eu simplesmente não consegui. A dor era tanta que eu mal conseguia andar.
A mente começou, então, a jogar conosco. As lágrimas foram inevitáveis. Tanto eu quanto o Dan estávamos realmente preocupados. Sendo o joelho a parte principal do corpo para pedalar, aquele poderia ser o final da viagem para mim. Tentamos manter o pensamento positivo.
A despedida
Nos próximos dias continuaríamos pedalando em direção ao norte do Quênia até Vihiga, onde visitaríamos o orfanato do Pastor Michael.
Decidimos que seria melhor eu pegar uma carona com o Pastor Michael e o Dan seguiria pedalando. Eu precisava descansar o meu joelho. Não foi uma cena muito agradável mas, pela primeira vez em um ano, tivemos que separar as nossas magrelas.
Kajiji Cha Watoto
Michael é um pastor em Naivasha que tem uma “padaria” no quintal da sua casa e com os lucros ele abriu um orfanato.
O Pastor Michael, como é conhecido, já tem esse projeto há dez anos. Oferecer suas famosas “Mandazis” por um preço que sua comunidade pode pagar é parte do projeto. Toda a comunidade quer o “Mandazi do Pastor”. Em outras palavras, o principal objetivo da padaria não é gerar lucros, apesar de os lucros serem de suma importância para a manutenção do orfanato.
Parte das crianças vive com ele e sua esposa, Agnes, em Naivasha e outra parte mora em Vihiga com sua mãe, mamma Joyce, que tem 90 anos. A vila em Vihiga, é conhecida como “Kajiji Cha Watoto” - Vila das Crianças em Swahili. Entre Naivasha e Vihiga, no momento, o pastor cuida de 16 crianças.
O Better Life Cycle doou uma geladeira, dois novos fornos para o projeto e financiou a construção do telhado da casa onde as crianças dormem em Vihiga.
O medo de ter que deixar a África se tornou bem menor com o passar dos dias. A dor no joelho desapareceu completamente e eu estava adorando os dias com as crianças em Vihiga.
O norte do Quênia é lindíssimo. As pessoas são super hospitaleiras e o céu africano fica ainda mais bonito sem a distração das luzes elétricas.
Durante esses dias que ficamos com eles na Vila das Crianças, percebemos que a situação da água é bastante complicada.
Sem água encanada, as crianças têm que descer até a fonte de água natural e trazer barris de água na cabeça montanha acima. Somente vivendo uma semana dessa maneira é que, realmente, damos o verdadeiro valor à torneira que temos em casa. Foi bem forte para mim.
Resovelmos então doar também o dinheiro necessário para colocarmos canos ao redor do telhado e um tanque para recolher água da chuva – muito comum por aqui. Espero que as crianças não precisem mais se expor à quedas e cobras para ter água diariamente.
O segundo desafio: os aros
Depois de quatro ou cinco dias o Dan chegou em Vihiga (com seis aros quebrados). Continuaríamos então juntos a viagem.
Começamos a pedalar com o nascer do sol, como de costume. Depois de 15km os aros da roda traseira da bicicleta do Dan começaram a quebrar navamente até ficarmos sem extras.
A única solução seria pegarmos uma carona e comprar os extras em Londres, pois não existem aros como os das nossas bicicletas na África.
Assim o fizemos. Pegamos uma carona até Kakamega Forest, uma das áreas florestais que ainda restam - depois de os colonizadores ingleses desmataram tudo para plantar chá -, enquanto esperávamos os aros chegarem.
A volta para a estrada e da dor: seria esse o final?
O dia havia chegado, seguiríamos viagem até Webuye em direção a Suam, fronteira com a Uganda. Decidimos que pedalaríamos ao redor do Mt. Elgon e passaríamos por Sipi Falls. Essa rota seria mais montanhosa mas não teríamos os perigos oferecidos por ônibus, carros e caminhões em alta velocidade na estrada principal pela fronteira em Busia.
No primeiro dia de viagem pedalaríamos 50km; a idéia era voltarmos devagar para, mais uma vez, pegarmos o ritmo, principalmente por causa do meu joelho.
O que eu temia aconteceu: nesse primeiro dia voltei a sentir a mesma dor, no mesmo local. Dessa vez a dor era bem mais amena, mas se fazia presente, e no final do dia eu estava emocionalmente esgotada.
Diante da realidade, foi difícil manter a positividade. Tive a triste impressão que, realmente, a viagem havia chegado ao final para mim.
Contudo, não queria desistir tão facilmente. Liguei para uma fisioterapeuta amiga em Naivasha e ela me aconselhou colocar muito gelo e alguns exercícios. Comecei a ler incansavelmente sobre esse tipo de dor na internet e descobri a tal da Síndrome da Banda Iliotibial, que era muito similar com o que estava acontecendo comigo.
Nessa pesquisa “descobri” que essa síndrome, muito comum em corredores e ciclistas, estava sendo gerada, no meu caso, pelo mal ajustamento da bicicleta. Assisti alguns vídeos em “bike fitting” e, ao analisar a minha bicicleta, descobrimos que o meu banco estava muito baixo e para trás, o que, provavelmente, causou a lesão.
Mais uma vez tivemos que nos despedir. Eu peguei um ónibus local até a fronteira em Malaba e depois outro ônibus até Mbale. Viajar de ônibus na África com uma bicicleta não é nada fácil. Eles tratam a bicicleta como se fosse um saco de batatas. O resultado é que você não pode relaxar nem um minuto, tem que ficar de olho e orientar cada movimento que eles tentam com a bicicleta no bagageiro. Se algum outro passageiro quiser colocar madeira, batata ou banana no bagageiro, mais uma vez eu tinha que descer e orientá-los a não colocar dois imensos sacos de batata em cima da roda da minha bicicleta. Ufa, cansativo...
Uma vez em Mbale, eu já estava bem mais confiante com relação à melhora do meu joelho. Continuei colocando gelo 3 ou 4 vezes ao dia e não descansei nas minhas pesquisas até que chegasse em uma cidade grande e pudesse visitar um médico. Eu tentava entender sozinha o que se passava.
Síndrome da Banda Iliotibial
A síndrome da Banda Iliotibial é causada pela inflamação da porção distal da banda iliotibial e/ou da bursa sinovial no ponto de contato com o epicôndilo lateral do fêmur. O atrito do trato iliotibial (fascia localizada na região lateral do joelho) com a região lateral do fêmur gera um processo inflamatório e, consequentemente, a dor na região.
Segundo o relato das pessoas que sofreram a mesma lesão, o tratamento é efetivo e, se a correção dos movimentos forem feitas, é provável que não ocorra novamente.
Comecei a tomar anti-inflamatório, continuei com o gelo e, como o reposo deveria ser de 6 semanas, decidi que pegaria um outro ônibus até Kampala, ao invés de pedalar.
Antes de continuar a viagem, fui encontrar o Dan em Sipi Falls. Ficamos juntos desfrutando a beleza natural de Uganda. Estou impressionada com a beleza desse pequeno país. Fizemos uma caminhada até as cachoeiras e minha energia estava forte e positiva. Foi uma delícia passar esses dias juntos cercados por cachoeiras, macacos, grilos e verde, muito verde!
Passamos um dia juntos em Mbale e minha saga de ônibus continuou por 7 horas até Kampala.
O Dan continuou a pedalada, e três dias depois estávamos juntos em Kampala novamente.
Se por algum motivo você estiver pensando em pedalar em Uganda, o trajeto ao redor do Mt. Elgon é belíssimo e vale a pena, mesmo sendo super montanhoso. Contudo, se estiver na estação das chuvas, talvez seja melhor não optar por esse trajeto uma vez que não é asfaltado e a lama pode ser uma inimiga para as rodas da sua bicicleta.
De volta à cidade grande
Uma vez em Kampala, visitei uma fisioterapeuta que confirmou o meu diagnóstico. Fiquei aliviada e feliz. Ela me aconselhou alguns exercícios, muito similares aos exercícios aconselhados pela minha amiga fisioterapeuta em Naivasha, gelo e o repouso que já estava em voga. Ela disse que a yoga ajuda muito e que eu poderia abusar dela, notícia boa!
Durante esse período na “cidade grande”, aproveitamos para ter um pouco de vida social. Fomos jantar com amigos. Fomos para bares e dançamos músicas dos anos 90, na África eles amam músicas desse período, é engraçado.
Fomos a um festival gostoso no parque chamado Blankets & Wines – você pode levar sua comida e bebida e fazer pic-nic enquanto ouve bandas africanas, delíííícia!
É importante para qualquer relação ter um pouco de vida social e, para nós, não é diferente. Durante essa viagem passamos muito tempo somente nós dois o que, às vezes, se torna um pouco cansativo. Ficamos felizes em poder dividir experiências com pessoas interessantes.
Em Kampala tivemos a chance de conhecer projetos inspiradores.
Um dos projetos que visitamos foi a School for Life Foundation. Um casal de amigos australiano, Dave e Annabelle, veio para Uganda cinco anos atrás e decidiram que a melhor maneira de ajudar seria construir uma escola, uma vez que o ensino aqui é muito pobre. Eles passaram dois anos captando recursos e, há três anos, uma escola com padrões de ensino de qualidade educa 160 crianças em uma vila a 40km de Kampala.
Eles oferecem não só educação gratuita para crianças que, muito provavelmente, não atenderiam à escola mas também almoço e extra classes como música e dança.
A idéia é tentar criar uma forma sustentável, para isso eles plantam e exportam pimenta e estão plantando café. Acredita-se que em três anos eles terão 70% das despesas pagas pelas plantações.
A abertura oficial da escola aconteceu durante o nosso período aqui e eles nos pediram para filmar a rotina do dia para que eles possam mostrar o trabalho realizado para os doadores na Austrália.
Foi um prazer ajudar um projeto tão inspirador como esse!
Dave e Annabelle estão no momento arrecadando fundos para a abertura da segunda escola na mesma área.
A School for Life Foundation é um projeto maravilhoso e muito inspirador. Desejo a eles todas as realizações que eles perseguem.
Keep up the good work guys!
Em Jinja, uma cidade a 12km de Kampala onde nasce o Rio Nilo, visitamos outro projeto inspirador.
Lunch4Learning é uma ONG que trabalha com escolas públicas em Uganda para oferecer almoço escolar para crianças que, previamente, passavam o dia inteiro sem comer.
Lunch4Learning oferece o capital inicial para que as escolas comecem a plantação dos alimentos necessários para o almoço escolar e/ou alimentos que, ao serem comercializados, oferecem o dinheiro necessário para a compra dos alimentos para o almoço.
O objetivo do projeto é aumentar a frequência escolar, assim como a melhora do aprendizado.
O projeto também inclui ajuda para as escolas começarem projetos sustentáveis e, então, se tornarem independentes no oferecimento de almoço nutritivo para os alunos.
Atualmente eles trabalham com 80 diferentes escolas, oferecendo almoço para cinquenta mil crianças. Impressionante e ispirador. O Better Life Cycle vai doar o dinheiro necessário para ajudar mais cinco escolas.
Esperança
Já fazem seis semans que estamos em Kampala e não sinto absolutamente nenhuma dor. É claro que só saberei com certeza quando voltar para a estrada mas sinto-me confiante e mal posso esperar para sentir aquele vento da liberdade novamente no rosto.
Em alguns dias voltaremos para a estrada em direção à Rwanda. Espero poder continuar essa viagem, e espero que meus joelhos não doam mais : )




































Querida, que saudades! Bom demais poder compartilhar das suas historias. Me enchem os olhos! Bjo grande em voces!
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